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12/11/2007 19:22
A DIFERENCIAÇÃO ENTRE GANGUES, GALERAS E TRIBOS URBANAS.
GUSTAVO DE SOUZA PINTO
Resumo
O presente artigo objetiva-se em analisar, compreender, apontar e diferenciar os agrupamentos juvenis intitulados como “gangues”,”galeras” e “tribos urbanas”.A partir destes termos, distinguir cada um deles e para tanto investigamos através de uma bibliografia multidisciplinar, utilizando autores sociólogos, antropólogos, juristas, psicanalistas e pedagogos. O campo de pesquisa é a cidade de Mococa – SP e a metodologia utilizada foi pesquisa participante, com pesquisa de campo, entrevistas com jovens integrantes destes grupos e autoridades da cidade.Trata-se, portanto, de uma diferenciação sociológica, reflexão e problematização terminológica, para uma possível elucidação das diferenças destes grupos; e que estes não sejam confundidos e nem tratados de maneira generalizada.
Palavras-chave: Sociologia da juventude, Grupos juvenis, Processo de identificação.
A diferenciação entre gangues, galeras e tribos urbanas.
O problema central deste artigo fundamenta-se na reflexão sobre a etimologia dos termos “gangues”, “galeras” e “tribos urbanas” que de forma incipiente vem sendo objeto de pesquisa.Objetivamos evidenciar as principais diferenças entre estes agrupamentos juvenis, para que desta forma tais termos não sejam empregados de maneira incorreta e nem de forma generalizada.
Tribos Urbanas
Para trabalharmos com o termo tribo urbana, utilizamos o referencial teórico de Maffesoli (1986) que dedicou uma de suas obras, Le temps des tribus; Le déclin de l’individualisme dans les sociétés de masse, exclusivamente para tratar do termo. Tanto que o próprio se fez pertinente de não adornar o termo tribo urbana com aspas e utilizar o termo como metáfora.
“La métaphore de la tribu,quant à elle,permet de rendre compte du processus de désindividualisation,de la saturation de la fonction qui lui est inhérent,et l’accentuation du role que chaque personne(persona)est applée á jouer em son sein.Il est bien entendu que tout comme lês masses sont em perpétuel grovillement,lês tribus quis y,cristallisent ne sont pás stables,lês personnes composant ces tribus pouvent evolver de l’une á l’autre.(MAFFESOLI,1986.p.15)
“C’est pour,rendre compter de cet ensemble complexe que je propose d’employer,d’une maniére métaphorique,lês termes de <>ou,de <>.Sans lês assotir,chaque fois,de guillemetes,j’entends ainsi insister sur l’aspect<> du partage sentimental de valeuers,de liux ou d’idéaux qui à lafois sont tout à fait circonscrits(localisme),et que l’on retrouve,sous dês modulations diverses,dans de nombreuses expériences sociales.” .(Idem,1986.p.35).
Ocorre justamente esse processo de desinvididualização, citado por Maffesoli acima, pois as tribos urbanas são compostas por adolescentes e jovens em forma de agrupamentos semi-estruturados, aonde as aproximações identitárias comuns entre eles vem a ser os gostos musicais e culturais fazendo-os desta forma “compartilharem um estilo de vida característico” grupal e não individual.Para tanto Abramo (1994) destaca:
“Esses grupos reúnem-se no tempo de lazer para procurar atividades de diversão, desenvolvem um estilo próprio de vestimenta, carregado de simbolismo, e elegem elementos privilegiados de consumo, que se tornam também simbólicos e em torno dos quais marcam uma identidade distintiva. Na circulação pelos espaços públicos em busca de diversão, muitas vezes entram em conflito com autoridades ou com outros grupos rivais(...)” (ABRAMO,1994.p.32)
Tanto para Maffesoli (1986) quanto para Abramo e para Oliveira, Camilo e Assunção.“As tribos são comunidades empáticas organizadas em torno do compartilhamento de gostos e formas de lazer”(OLIVEIRA,CAMILO E ASSUNÇÃO,2003.p.63) Constataremos isso no decorrer do trabalho com exemplos práticos.
Citamos novamente Abramo que:
“...todas elas tendo a música como elemento centralizador de suas atividades e da elaboração de sua identidade, e caracterizando-se também por um imenso investimento na construção de um estilo de aparecimento (modo de vestir,expressão facial,postura de corpo gesticulação )Como sinalizador de sua localização e visão do mundo.(ABRAMO,1994,p.46)
Reintegro e atribuo que a música é além de um elemento centralizador, é o elemento que serve de “pilar de sustentação” ou melhor, metaforizando a “base” ou “alicerce” das tribos urbanas, pois é através do gosto musical em comum que estes se conhecem e conseqüentemente aderem à tribo urbana ou se juntam para formar uma. A música, além de ser o elemento centralizador conforme trabalhado por Abramo, é a porta voz da ideologia da tribo se esta existir é claro, pois é ela que norteia a cultura da tribo urbana.
Quanto ao reconhecimento de um grupo pelo outro isto é fato tanto que Maffesoli (1986) nos aponta:
“On peut considérer qu’il existe, de facto,une reconnaissance de ces groupes lês uns par lês autres.Comme je l’ai indique l’exclusive ne signifie pás l’exclusion,ainsi une telle reconnaissance entraine um mode d’ajustament spécifique.Il peut y avoir conflit,mais celui-ci exprime em fonction de certaines régles,il peut être parfaitement ritualisé(...)Si l’on,applique ce madle aux tribus citadines, on observe qu’il existe dês mécanismes de régulation três sophistiques.”(MAFFESOLI,1986.p.214).
Ocorre o reconhecimento destes grupos uns pelos outros é óbvio que existam conflitos entre os mesmos e é justamente este o nosso objetivo de desmistificar estes conflitos, tanto na cidade quanto mais precisamente seus desdobramentos no interior da escola.
“En fait,à l’encontre de la stabilité induite par lê tribalisme classique, lê neo-tribalisme est caractérisé par la fluidité,les ressemblements ponctuels et l’éparpillement.C’est ainsi que l’on peut décrire lê spectacle de la rue dans les megápoles modernes. .”(Idem,1986.p.116).
As tribos urbanas surgem inicialmente nas metrópoles e somente depois migram e ou surgem em cidades menores como é o caso de Mococa. E tal espetáculo citado por Maffesoli (1986), ocorre principalmente à noite, que é quando podemos notar a aparição deste neo-tribalismo desflorar na selva de pedra.
Já fizemos referência ao porque dos agrupamentos, utilizando vários autores, acontece que nenhum deles afirmou que as tribos urbanas e principalmente as galeras acabam abarcando muitos membros, não só como uma forma de sociabilidade menos repressiva do que a família a religião e a porque não, também a escola; mas também como uma forma de autodefesa e sobrevivência grupal na selva de pedra desindividualizada.
Ou jovem se agrupa, ou acaba que por estar fora do sistema. Também pelo fator identitário do mesmo compartilhar o sentimento de pertença isto faz com que ele se sinta de certa forma “seguro” ou “protegido” pelos outros membros da galera ou tribo urbana.Talvez nenhum dos autores tenha observado isto, por nenhum deles ter feito parte de nenhuma galera, gangue ou tribo urbana.
A noite é quando o espetáculo das ruas vem à tona com a aparição das gangues, galeras e tribos urbanas em meio à selva de pedra.Pois durante o dia seus membros ou estão estudando - e a uniformização descaracteriza o visual simbólico destes grupos-ou estão trabalhando.Estes jovens passam desapercebidos perante a luz do dia, com exceção aos finais de semana, pois durante a semana dificilmente podemos notar a presença deles que desprovidos de suas roupas e indumentárias, se misturam aos jovens e adolescentes que não fazem parte de nenhum destes grupos com quais estamos trabalhando.
As tribos urbanas se encontram em locais diferentes das galeras e das gangues.Em linhas bastante gerais elas se aglutinam em determinados recortes do espaço urbano – praças, pista de skate, bares, cemitério – ou seja, em territórios simbólicos, isso devido a seus membros não habitarem o mesmo espaço físico, bairro ou quadra.Desta forma impossibilita-se a demarcação do território físico, e é nestes territórios simbólicos que eles se encontram para conversar, tocar instrumentos musicais, praticar esportes, discutir política, emprestar cds, dvds, revistas e materiais afins específicos de sua cultura, bebem por vez alguns fazem o uso de drogas ilícitas.
Nas tribos urbanas não existem lideres nem hierarquias.Por vez alguns membros se destacam perante aos outros politicamente ou musicalmente, mas, todavia não os tornam nem melhores nem piores que os demais membros.Os fatores que diferenciam as tribos urbanas das gangues seria o fato das tribos urbanas não estarem envolvidas com a criminalidade e os pólos de aglutinação são a música, o lazer e a cultura.
È um tanto complexo e bastante extenso trabalhar com a termologia tribo urbana ou a metáfora das tribos urbanas, pois este termo não é encontrado em dicionários de sociologia, portanto, se fez necessário a citação fragmentada de alguns autores que trabalharam sobre o tema, para buscar explicitar, mesmo que superficialmente, o que vem a ser as tribos urbanas.A fim de diferenciar tanto gangues como galeras e para que não sejam tratadas como iguais e ou sejam confundidas.
As Gangues
Nesta parte do trabalho iniciamos propondo uma problemática na abordagem termológica de algumas palavras. Abaixo iniciaremos com uma citação de Morin.
“Existiam antes de 1950, em diversos grandes centros urbanos, bandos fechados de adolescentes, que tendiam a constituir-se em clãs, que ignoravam ou negavam o universo dos adultos. Esses bandos, chamados “a-sociais”,as vezes delinqüentes(...)Em certo sentido ,a “pré historia” da cultura juvenil moderna começa nos bandos marginais e adolescentes”(Morin.p.138).
Morin nas décadas de 1960 e 1970 refere-se a tais grupos de adolescentes e jovens como bandos que segundo o dicionário Aurélio (1976) significa: 1-Grupo de pessoas ou animais, multidão. 2-Quadrilha de mal feitores.
Em nosso trabalho não utilizamos o termo bando.Primeiro por se tratar de um termo de certa forma ultrapassado e não adotado pela sociologia, este é mais adotado em meios jurídicos como veremos mais adiante. Em segundo por que no que diz respeito ao item 2 do dicionário Aurélio “quadrilha de mal feitores”, isto não explicita exatamente uma gangue.
Em um segundo momento, propomos discutir que gangue não é quadrilha e também diferenciar uma da outra.A fim de abordar melhor o tema, nos utilizaremos o dicionário jurídico e o código penal para uma melhor compreensão do que vem a ser considerada uma quadrilha sob o ponto de vista jurídico.Segundo Diniz (1998):
“Quadrilha-Direito penal. Bando de mais de três mal feitores, dirigidos por um chefe, que se reúnem para praticar crimes, como assalto, roubo e latrocínio. Formação de quadrilha-Direito penal. Ato em que dois ou mais indivíduos se associam para perpetuar crimes. (DINIZ. 1998)
Tendo em vista que as gangues por nos estudadas não possuírem chefes.A diferença evidencia-se no primeiro momento.Já Jesus (2002) no código penal nos descreve da seguinte forma:
“A quadrilha ou bando distingue-se do concurso de agentes nos seguintes pontos: A)Na quadrilha ou bando os membros associam-se de forma estável e permanente, ao passo que na co-delinqüência os sujeitos se associam de forma momentânea. B)Na co-delinqüência os participantes associam-se para a prática de determinado crime, antes individuado, ao passo que na quadrilha ou bando os seus componentes se associam para a pratica de indeterminados número de crimes (...)Sendo a quadrilha ou bando crime independente dos crimes que a associação delitiva venha a praticar,pouco importa se tais crimes ofendam o patrimônio,vida,liberdade pessoal etc.O fato criminoso é associação de mais de três pessoas para fim de cometimento de crimes de tal, de per se ,ofende tão-somente o bem jurídico”paz publica”(JESUS,2002.pp.429-430)
Após tal explicitação fica clara a diferença entre gangues e quadrilha, ou seja, um grupo que se associa de forma instável e permanente, praticando indeterminados crimes.Enquanto que curiosamente o que vamos atribuir ao termo gangue mais adiante vem a ser definido no direito penal como co-delinqüência onde seus membros associam-se para a pratica de determinados crimes. Outro fator há ser levado em conta é que a gangue não se constitui num grupo estável e permanente, pois este é instável e rotativo.Isto se deve a fatos como, prisão de alguns membros, internação em clinicas de recuperação de drogas, saída de membros que se tornam evangélicos,o que dificilmente fará com que as gangues se constituam dos mesmos membros.
Portanto, para nos referirmos ao termo “gangues” utilizamos a concepção utilizada por Abramovay (2002) que a define como:
“No Brasil, quando nos referimos às “gangues”,não estamos falando em “organizações”de um negocio de características “empresariais”de uma racionalidade instrumental,que possibilitaria a mobilidade social do jovem(...)a palavra “gangue” tem sido utilizada para designar um grupo de jovens,um conjunto de companheiros e também uma organização juvenil ligada a delinqüência”(ABRAMOVAY,2002pp.94-95).
E também se faz necessário citar Diógenes que diferencia “gangue” de “galera”.
“O uso do termo gangue pode ser enfocado levando-se em conta um tênue limite, entre as “galeras” que se organizam para ir a bailes, as praias,para compartilhar músicas,drogas e aquelas que têm um objetivo explicitado entre seus membros,para o roubo, as brigas entre galeras,os saques a bens e equipamentos coletivos etc...Desse modo,pode-se afirmar que toda gangue é uma galera, mas nem toda galera é uma gangue.”(DIÓGENES.p.108).
Após discorrer sobre a terminologia, adentramos no universo das gangues da cidade de Mococa, que é constituída por membros oriundos de diversos bairros em que as gangues, galeras e tribos urbanas estão distribuídas para resguardar a identidade de cada grupo e não tornar este trabalho num dossiê de informações delituosas.Tomamos por principio dividir a cidade em cinco Zonas: Sul, Norte, leste, Oeste e Central.Trabalharemos estes territórios detalhadamente mais adiante.
As gangues são formadas por no mínimo oito adolescentes e jovens, que praticam roubos a residências, assaltos a jovens de classe média e algumas traficam drogas.Nem sempre possuem lideres conforme afirma Diógenes:
“Não é necessário entre as gangues “ter cabeça”Ter “uma cabeça forte” para ser o líder.Pode-se observar,ate mesmo de modo inverso,que certos lideres denominados sintomaticamente,chefe e não cabeça ,pensam pouco,falam pouco ma por outro lado,são corpulentos,musculosos,assemelhando-se ao estereotipo dos seguranças e leões-de-chácara .Eles precisam apenas se destacar pela força e pela coragem de se expor,na gangue o que importa é ser um cara notado.”(Idem,1998.P116)
A aproximação das gangues não foi difícil, pois minha convivência nas ruas da cidade me possibilitou certa facilidade de reconhecer seus membros e estes transmitiram segurança para os outros membros de ficarem a vontade durante as entrevistas.As entrevistas foram realizadas á noite na praça de fronte à escola, pois muitos de seus membros não estudam, e os que estudam dificilmente freqüentam as aulas, e durante as entrevistas o baseado nunca faltava e eu sabia o risco que estava correndo, mas talvez eles utilizaram desta prática para ver se eu desistiria das entrevistas e ao mesmo tempo para me desafiar e ganhar a minha confiança.
Quando a gangue possui uma “boca” , não existe um líder, mas sim um “patrão” que comanda e gerência o tráfico de drogas, e este possui os “olheiros” e os “aviãozinhos” .Todas as gangues possuem armas de fogo, tanto que o numero de homicídios dolosos comprovam tal fato.Analisemos a fala de um jovem de gangue:
“Viver no crime é tá com o bicho solto saca ? È tá cheio de flagrante pra segurar toda hora, tem que ficar ligeiro com os coxinha e também com as tretas com outras gangues.” (Membro de Gangue Zona Oeste).
Fala de um traficante de drogas:
“Eu vendo a morte pros playboy mesmo, porque os papais deles não sabem o veneno que a gente passa na periferia, e se eles pudessem eles faziam pior com a gente”.(Traficante membro de Gangue).
Mococa não se diferencia de muitas cidades brasileiras onde nível de desemprego é altíssimo não restando muitas saídas para a juventude conforme afirma Abramovay:
“O roubo e o tráfico são opções certas para jovens que sabem da suas limitações, para conseguir segurança, assim,se o trabalho não for conseguido,a vida do crime apresenta-se como uma saída certa na medida em que eles não têm outra alternativa.(ABRAMOVAY,.2003.p.88)
Esta citação confirma a resposta do promotor da vara da infância e da juventude.Em entrevista concedida para esta pesquisa conforme vemos abaixo:
Eu - Quais são os fatores determinantes que fazem com que os jovens estejam envolvidos com a delinqüência?
Promotor – A falta de estrutura familiar é um dos fatores preponderantes, a isto comumente se alia à falta de acesso a educação, as grandes disparidades sociais, desemprego e falta de áreas de lazer.
Eu – E qual a maior freqüência de delitos cometidos por estes jovens?
Promotor – Furtos, tráfico, roubo e posse de entorpecentes.
Nas entrevistas realizadas com os jovens pertencentes as gangue de Mococa observamos que:
As gangues são extremamente violentas, envolvidas com a criminalidade, demarcam território, algumas são pichadores e estão constantemente envolvidas em conflitos com gangues rivais, onde os casos extremos resultam em mortes.A grande maioria de seus membros já teve passagem pela policia ou foram presos, vêem como as únicas saídas da vida do crime: o casamento converter-se a alguma religião e a morte.Estes não se demonstram otimistas perante as expectativas para o futuro.Espelham-se em letras de Rap de grupos como Racionais MCs,Facção Central,De Menos Crime entre outros grupos.
AS GALERAS
A galera é, em linhas bastante gerais, o primeiro grupo em que os adolescentes e jovens passam a pertencer visto que geralmente são formadas por indivíduos cujo fator identitário é a vizinhança, podendo ser um bairro ou determinado números de quadras, uma rua.Desta forma, uma galera pode ser constituída por laços de amizade, tendo como fator estruturante a solidariedade, já que seus membros muitas vezes se conhecem desde a infância. Comumente as galeras e gangues são confundidas, sendo necessário efetuarmos a distinção entre elas. Para tanto buscamos em Waiselfsz (1998) a diferenciação entre as duas.
Diferenças e semelhanças entre gangues e galeras.Gangues: Assalto/roubo, brigar, turma conhecida, união, autodefesa, proteção, pichar, violência, vandalismo, território, rivalidade, aprontar, fazer o erro, vingança.Galeras: Diversão, saudável, turma conhecida, união, autodefesa, proteção.(WAISELFSZ, 1998.p.40).
A galera, por sua vez, é entendida como um grupo de jovens que se reúne para sair, para se divertir e, eventualmente, “para consumir e mexer com droga”.Muitas vezes serve de proteção aos moradores das quadras, fazendo justiça com as próprias mãos e não admitindo intrusos nos arredores.Diferentemente das gangues, as galeras não saem com predisposição para praticar atos ilícitos e violentos.Mesmo assim, podem vir a envolver-se em brigas e conflitos. (Idem,1998.p.44)
Conforme abordamos anteriormente as gangues estão envolvidas com a criminalidade, todavia não se constituem em quadrilhas. Embora a maioria dos membros de umas galeras envolvam-se em brigas com galeras rivais de bairros diferentes, isto não os torna uma gangue.
As brigas são algo comum e corriqueiro entre as galeras, visto que seus membros defendem-se mutuamente como uma espécie de “solidariedade orgânica”.No aspecto cultural não existe um estilo musical estruturante e identitário como ocorre com as tribos urbanas, assim como não existe envolvimento com o crime como fator identitário.Seus componentes não utilizam uma indumentária especifica que os identificam, como ocorre com as tribos urbanas. Embora algumas galeras façam uso de drogas, não há a prática do tráfico entre elas e seus membros. Este grupo faz a demarcação de seu território geográfico e dentro deste são muitas vezes mais temidos pela vizinhança do que respeitados.
Em entrevista realizada com membros de galeras, pudemos observar o seguinte:
Eu- Para que uma galera se reúne?
Entrevistado-“Na galera a gente sai para dá role ,curtir,beber,fumar um baseado ,mas sempre roa treta,então nois sai-na-mão ”.
Eu- Sai-na-mão com quem?
Entrevistado-“Sai-na-mão com as galeras rivais de outros bairros.”
Eu- E qual galera é mais temida ou respeitada?
Entrevistado- “É a galera da zona norte,evitamos treta com eles,porque quando rola treta é cabulosa .”
Eu- E porque a galera da zona norte é tão temida?
Entrevistado- “Porque junta muita gente de todas as galeras deste bairro e a outra galera sempre leva a pior.”
Considerações finais
Objetivo deste artigo consiste em elucidar as principais diferenças entre os grupos juvenis, dos pontos de vista sociológico, jurídico, antropológico e educacional.Pois a mídia os trata de maneira geral o que por ventura faz com que estes recebam o mesmo tratamento ou sejam confundidos.Para tanto alem da discussão e problematização dos termos, efetuamos um trabalho de campo para cruzar com as informações colhidas nas bibliografias consultadas.Para que desta forma posamos contrastar a visão dos autores com a realidade dos jovens integrantes destes grupos.O presente artigo faz parte de um Trabalho de Conclusão de Curso ao qual encontra-se em andamento que visa investigar e compreender as gangues galeras e tribos urbanas na cidade de Mococa – SP, sua inserção e correlação com a violência escolar.
GUSTAVO DE SOUZA PINTO
Abstract
The present article aims to analyze, understand, point out and differentiate the youth group intitled as “gangs”, ”galeres” and “urban tribes”. From these terms, it tries to distinguish each group from the other and in such way, investigates through a bibliography - involving a combination of several academic disciplines, using works of sociologists, anthropologists, jurists, psychoanalysts and pedagogues. The research field is the city of Mococa, in São Paulo State, and the used methodology was participant research, interviews with young integrants of these groups and authorities of the city. Therefore, it is a sociological differentiation, reflection and terminological problematization, for a possible briefing of the differences of these groups for then to do not be treated in a generalized way.
Key-words: Sociology of the youth, Youth groups, Process of identification.
Bibliografia
ABRAMOVAY, M. Gangues, galeras, chegados e rappers.Juventude violência e cidadania nas cidades da periferia de Brasília.Rio de janeiro: Garamond, 2002.
ABRAMOVAY, M. Violências nas escolas: versão resumida /Brasília: UNESCO, 2003.
ABRAMO, H.W. Cenas juvenis.Punk, darks, no espetáculo urbano.São Paulo: Página Aberta LTDA, 1994.
DIÓGENES, G. Cartografias da cultura e da violência: gangues e galeras e o movimento Hip-hop.São Paulo: Annablume, 1998.
DINIZ,Maria Helena.Dicionário jurídico,São Paulo:Saraiva,1998.
JESUS,Damásio E.Direito Penal.São Paulo:Saraiva,2002.
MAFFESOLI, M.Le temps dês tribus; Lê déclin de l’individualisme dans lês sociétés de masse.Françe: Méridiens,1988.
MORIN, Edgar.Cultura de massas no século XX: O espírito do tempo II: necrose; Tradução de Agenor Soares Santos.Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1981.
WAISELFISZ, Julio Jacobo, coord.Juventude, violência e cidadania: os jovens de Brasília.São Paulo: Cortez, 1998.
OLIVEIRA,Maria C..S.L de, et allii.Tribos urbanas como contexto de desenvolvimento de adolescentes:Relação com os pares e negociação de diferenças.In:Temas em psicologia da SBP-2003,vol.11,pp.61-75 ISSN:1431-389x
Artigo extraído da revista Ensaios de História. Unesp-Franca. 2006 N10 vol.1
enviada por Gustavo
12/11/2007 19:15
O DESAFIO DOS EDUCADORES PERANTE A ESCOLA ENQUANTO MECANISMO DE CONTROLE SOCIAL E FORMADORA DE FUTURAS CONDIÇÕES GERAIS DE PRODUÇÃO .
Antes de iniciarmos propriamente o tema central deste artigo se faz necessário a citação de alguns conceitos utilizados por alguns autores e um deles vem a ser Althusser, quem vale a pena ser citado extensamente. Este autor designa como Aparelhos Ideológicos do Estado as instituições distintas e especializadas, e inclui a lista que segue abaixo.
AIE Religiosa (o sistema das diferentes Igrejas)
AIE Escolar (o sistema das diferentes “escolas” publicas e privadas)
AIE Familiar
AIE Jurídico
AIE Político (o sistema político, os diferentes partidos)
AIE Sindical
AIE de informação (a impressa, o rádio, a televisão, etc...)
AIE Cultural (letras, belas artes, esportes, etc...)
(Althusser, 1985, p.68)
Em seguida, após referir-se aos aparelhos ideológicos de Estado de maneira geral, o autor passa a descrever mais especificamente como cada qual funciona, ou seja, o modus operantis de cada um.
Acreditamos portanto poder apresentar a tese seguinte, com todos os riscos que isto comporta. Afirmarmos que o aparelho ideológico de Estado que assumiu a posição dominante nas formações capitalistas maduras, após uma violenta luta de classe política e ideológica contra o antigo aparelho ideológico de Estado dominante, é o aparelho ideológico escolar.[...] Acreditamos portanto ter boas razoes para afirmar que, por traz dos jogos de seu aparelho ideológico de Estado político, que ocupava o primeiro plano no palco, a burguesia estabeleceu como seu aparelho ideológico de Estado Nº 1, e portanto dominante, o aparelho escolar, que, na realidade, substitui o antigo aparelho ideológico de Estado dominante, a Igreja, em suas funções. Podemos acrescentar: o par Escola-Familia substitui o par Igreja-Famila. (Althusser, 1985, pp.77-78)
Althusser tece minuciosamente que, com o declínio da religião como aparelho ideológico de Estado dominante, esta foi substituída pela Escola, o que vale ressaltar. No que diz respeito ao que este autor chama de par, isto antes era formando por Igreja-Familia e posteriormente substituído por outro par, este sendo a Escola-Familia. Com base nas concepções teóricas mencionadas acima, pretende-se agora fazer uma releitura critica. Acredita-se que Althusser possa estar de certa forma equivocado, pelo menos se for tomar como exemplo a complexa realidade brasileira e também pelas quase três décadas que se passaram desde a escrita do original deste.
Pois acompanhamos nas ultimas décadas do século XX e inicio do XXI, uma espécie de “desfacelamento” da família nuclear, e passamos assim a tecer novas redes de relações. Há uma enorme quantidade de casais separados ou divorciados que muitas vezes habitam o mesmo lar. Estes, freqüentemente não se falam, por vezes voltam a morar com os pais, ou dão continuidade as suas vidas. Tudo isto independentemente dos moldes da tão tradicional família nuclear baseada nos preceitos judaico-cristãos. Historicamente, seguir determinados preceitos religiosos enchia de orgulho as linhas familiares. Esta tradição foi quebrada assim como outras se perderam no tempo junto com o declínio da Igreja. Mesmo sendo o maior pais católico do mundo, não encontramos um catolicismo ortodoxo como em alguns países europeus, mas sim um catolicismo liberal, repleto de sincretismo. Não cabe aqui uma critica aprofundada à Igreja em si, mas sim uma análise de como Althusser se posiciona em relação ao par Família-Escola.
Vale ainda ressaltar que, além do desfacelamanto da família nuclear, notamos como um outro fator que contribui diretamente na desestruturação do aparelho ideológico de Estado familiar das poucas famílias nuclear ainda restantes: a ser a falta de tempo para se dedicar aos filhos, tempo este despendido totalmente as relações sociais de trabalho, levando a uma conseqüente a saturação física e mental. Conforme Marx já alertava:
A produção capitalista que é essencialmente produção de mais-valia, absorção de mais-trabalho produz portanto com o prolongamento da jornada de trabalho não apenas atrofia da jornada de trabalho, a qual é roubada de suas condições normais, morais e físicas de desenvolvimento e atividade. Ela produz a exaustão prematura e o aniquilamento da própria força de trabalho. Ela prolonga o tempo de produção do trabalhador num prazo determinado mediante o encurtamento de seu tempo de vida.(Marx, 1982, p.212).
Desta forma, na maioria das vezes a educação dos filhos fica por conta do que Althusser conceitua como aparelho ideológico de Estado de Informação (a imprensa, o rádio, a televisão, etc..) aparelho ideológico de Estado este que funciona de maneira brutal e extremamente eficiente. O que Adorno escreveu em um texto clássico “Indústria cultural e sociedade” em 1967, bem antes do boom televisivo.
[...] A indústria cultural perfeitamente realizou o homem como ser genérico. Cada um é apenas aquilo qualquer um pode substituir: coisa fungível, um exemplar. Ele mesmo como individuo é absolutamente substituível, o puro nada, e é isto que começa a experimentar quando, como o tempo, termina por perder a semelhança.(Adorno, 2002, p.43)
Gadotti vem a trabalhar mais tarde com algo semelhante, e acrescenta o papel da televisão no Brasil, sendo esta uma grande indústria cultural e de vendas, que tem como objetivo difundir, reproduzir e legitimar as idéias da cultura dominante. O autor vai além e aprofunda sua critica, ressaltando que a televisão se apossa do pouco tempo de descanso do trabalhador, para praticar a educação permanente, ou seja, a inserir as idéias da classe dominante. Essa inserção forçada é comprovada através de pesquisas que trazem dados que apontam que os trabalhadores passam 50% de seu tempo livre de frente a Televisão.
Assim podemos considerar que, diferentemente dos pares propostos por Althusser (Igreja-Familia e posteriormente Escola-Familia), seria então atualmente o aparelho ideológico de Estado de Informação-Escola. Ambos seriam manipulados pela burguesia, e enquanto o aparelho ideológico de Estado de Informação traça seu papel de “educativo”, ele é totalmente alienante e acrítico. Conforme coloca Gadotti:
A juventude educada pela televisão tem um vocabulário restrito: não discute, não fala, não debate e tem um nível mental baixo. Não lê, não sabe redigir. Saber ler e escrever é um processo muito complexo. Exige o contato permanente com o texto. É uma especialização do saber que não se aprende pela televisão.(Gadotti, 1987, p.139)
Cabendo assim a Escola concomitantemente reforçar estes mecanismos e ampliar as regras de controle social tão necessárias para a futura formação de condições gerais de produção. A este respeito Giroux levanta a seguinte consideração.
[...] A escola realmente trabalha para produzir diferenças de classe, raça e sexo, junto com os antagonismos fundamentais que as estruturam. [...] formas mais amplas de dominação política, econômica, social e ideológica podem impregnar a linguagem, os textos e as práticas sociais da escola, bem como as experiências dos próprios professores e alunos.(Giroux, 1989, p.77).
Desta maneira as coisas seguem seu curso, ou melhor, como diria Althusser, um verdadeiro concerto com uma música silenciosa, concerto este formado por diversas sinfonias. Tendo como maestros a classe dominante que estuda e põe em prática cada nota destas sinfonias, para que soe como verdadeiras canções de ninar. Assim, a brutalidade causada pela televisão e, porque não, pelos outros aparelhos ideológicos de Estado de informação, causa uma atrofia brutal na mente da classe trabalhadora e de seus jovens filhos que tristemente seguem seu caminho.
[...] A cultura sempre contribuiu para domar os instintos revolucionários bem como os costumes bárbaros. A cultuar industrializada dá algo mais. Ela ensina e infunde a condição em que a vida desumana pode ser tolerada.(Adorno, 2002, p.53).
Pode-se entender isto como a questão da submissão ao processo de extorsão de mais-trabalho exercido pelos capitalistas, que encontram nesta juventude alienada e despolitizada, um verdadeiro exército de contingente trabalhista, aptos para lhe servirem.
A escola pobre cumpre a sua missão que é de formar futuras condições gerais de produção. Verdadeiras marionetes, moldadas exatamente para assumir funções dentro das empresas, trabalhadores jovens com mentes atrofiadas e condicionadas para servir ao capital, a ponto de não perceberem o ar denso que os sufoca, sempre contentes com seus míseros salários, passando desapercebido o enriquecimento dos capitalistas sob seus suores que nada mais seria do que o fruto do mais-trabalho ao qual estão expostos.
Porém não cabe aqui apenas depositar toda a parcela de culpa sob as costas destes jovens e de seus pais, que também são trabalhadores, pois não devemos nos esquecer que eles fazem parte deste complexo mundo capitalista e simplesmente fazem o que foram ensinados, cumprem seus papeis.
Eis que surge um questionamento. Qual é o papel dos educadores perante esta situação? Como competir com a educação permanente recebida pela televisão? Pode soar como radicalismo, mas me arrisco a afirmar que o professor não é tão somente um formador de futuras condições gerais de produção, ele é também um agente de contenção social. Sendo assim, o professor é incumbido não apenas por transmitir os conteúdos de sua disciplina assim como educar estas crianças e jovens que, devido à desestruturação familiar, deixa de trazer consigo o que Bourdieu conceitua como “Capital Cultural”, na obra “O poder simbólico”, que cada ser passa a receber dentro de casa e leva consigo para as escolas. Assim, encontramos alunos totalmente desprovidos de capital cultural ou que recebem o capital cultural da televisão. Há quem diga que a Internet contribui para esta educação, porém isto em uma pequena parcela, porque no Brasil menos de 3% da população tem acesso a Internet, segundo dados do IBGE.
Para finalizar, é relevante refletir sobre conter estas crianças e jovens dentro das salas de aula, mesmo sem o interesse destes. Cabe aqui uma critica aos demagogos da educação que buscam formular verdadeiras receitas de bolo de como lhe dar com estes problemas nas escolas, porém estes renomados pós-doutores estão muito distantes do chão das salas de aula.
Relato aqui em um parágrafo sucinto uma de minhas experiências, que não vêm a ser tão diferente do cotidiano de muitos professores. Acordar muito cedo e se deslocar de ônibus até as escolas distantes do centro. Chegar a escola e encontrar várias grades já na entrada e conforme adentra, se depara com muito mais grades, e trancas o que não diferem muito de presídios. As salas estão todas depredadas, com lousas desbotadas, paredes rasuradas, pilhas de sucatas de cadeiras e carteiras, salas sem portas... As agressões físicas são constantes entre alunos e há ameaças aos professores. No horário da entrada e da saída a ronda escolar está sempre presente, o que acaba por tornar a escola um espaço de total insegurança para todos.
A falta de interesse e a indisciplina dos alunos acabam por funcionar como um solvente na relação professor/aluno, pois o professor, além de não conseguir cumprir o que os Parâmetros Curriculares Nacionais exige, perante este clima não sabe como alcançar a práxis de toda a ideologia de uma possível educação critica como menciona o francês Giroux, ou até mesmo toda a filosofia Freiriana. É indubitável que muitos conceitos devem ser revistos, por exemplo: Como educar quem não quer ser educado? Como despertar a consciência critica através de uma educação libertadora, perante a uma educação permanente alienante oferecida diariamente em doses homeopáticas pela televisão? Vale lembrar que nem todos professores seguem a filosofia Freiriana. E que a educação é uma via de mão dupla e a mão que serve ao capital é esmagadoramente muito maior que as linhas libertadoras, ou libertárias. Isto do ponto de vista ideológico, pois se formos fazer uma análise de classe, passa a ser mais agravante ainda, conforme aborda Reguera:
Se educador e educando estivessem mergulhados na pobreza, teriam um interesse comum, participariam de uma mesma expectativa; ambos necessitariam da colaboração do outro. Mas o professor, por ser professor, tem um status que a população marginal jamais desfruta; por isso lhe é tão difícil, a partir ad sua profissão de privilégio, libertar o outro.(Reguera, 2007, p.65)
Este pequeno artigo não vem para acrescentar respostas para as presentes problematizaçoes, mais sim para levantar questionamentos para serem discutidos e desta forma buscar alguma maneira de superar estas dificuldades.
Bibliografia:
ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado: Notas sobre o Aparelho Ideológico do Estado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985, 2a edição.
APPLE, T.W. O currículo oculto e a natureza do conflito. In APPLE, T.W. Ideologia e currículo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.
APPLE, T.W. História do currículo e controle social. In APPLE, T.W. Ideologia e currículo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido.Editora paz e terra s/a 1996.
GADOTTI, Moacir. Concepção dialética da educação: um estudo introdutório. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1987.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico / Pierre Bourdieu; tradução Fernando Tomaz (português de Portugal)- 6 ed.- Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2003.
BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente á escola e à cultura.In: NOGUEIRA, Maria Alice; CATANI, Afrânio. Escritos de educação. Petrópolis; Vozes, 1998.
GIROUX, Henry. A Escola crítica e a política cultural. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1988.
REGUERA, Enrique Martinez. Pobres mas lucrativos. In: Letra Livre. Ano 12 nº47. Rio de Janeiro, achiamé, 2007.(pp.63-66)
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro 1, Volume 1. São Paulo: Difel, 1982.
Artigo publicado nos anais da I e Semana de educação da Unesp-Franca, outubro 2007.
enviada por Gustavo
12/11/2007 19:03
Neocolonialismo econômico
No dia 8 de março acompanhamos por todos os meios de comunicação a visita do presidente norte americano, George W. Bush, motivo de polêmica e protestos na capital paulista. Mas afinal, quais foram os assuntos tratados com o presidente Lula?
Com certeza o mais latente foi a negociação a respeito do etanol, nosso velho e conhecido álcool. Agora, vejamos o fator determinante para que Bush tenha desembarcado com sua comitiva aqui no Brasil em busca do etanol: Depois de incessantes invasões realizadas no Oriente Médio em busca de petróleo para suprir as necessidades norte americanas, seguido ao fracasso em todas estas empreitadas, como se pode atestar nas guerras civis instauradas no Iraque e no Afeganistão, sendo esta a descrição de legado de numerosas e caras falhas deixadas por Bush.
Vale ainda ressaltar que os Estados Unidos se recusaram a assinar o Protocolo de Kyoto, o acordo de reduzir em 5% a emissão de dióxido de carbono. Desta forma, fica claro que a escassez de petróleo atrelada a baixa produtividade de etanol norte americano, (este produzido a base de milho, menos produtivo que a cana) e a falta de água para produzir o mesmo, fez com que Bush buscasse como alternativa o Brasil. Basta sabermos quais são as principais vantagens para a economia brasileira, ou melhor, para o oligopólio do álcool, este com certeza o mais beneficiado, pois este setor está centralizado nas mãos de somente 5 grandes empresas. Empresas que, por sua vez, produzem 15 Bilhões de litros de álcool por ano, exportando apenas 3 Bilhões, empregando 450 mil no setor. Mão-de-obra semi-escrava, pois os trabalhadores são submetidos a cumprirem metas de corte de cana de 12 toneladas por dia, sendo pagos por metro. São trabalhadores que cumprem jornadas de trabalho desumano chegando até 12 horas por dia, os quais muitos morrem por exaustão, uma vez que estão dispostos a suportarem, além das cargas físicas, também químicas e biológicas.
Hoje, o Brasil possui 5,62 milhões de hectares de cana-de-açúcar e segundo projeções, nos próximos 20 anos esta área pode se ampliar para 35 milhões de hectares. Seja por meio de compra de terras ou através do arrendamento de pequenos sítios, principais responsáveis pelo abastecimento de produtos hortifrutigranjeiros, fazendo os pequenos produtores serem forçados a migrar para as cidades. Há de se ressaltar os danos causados ao meio ambiente, devido a pratica da monocultura, que implica no esgotamento da terra e na poluição dos rios. Além do esgotamento do solo, não devemos nos esquecer que as queimadas são responsáveis pelas mudanças climáticas que contribuem para o aquecimento global. A mencionada monocultura é praticada desde os tempos da colônia e, por ironia do destino, a mesma monocultura canavieira. A diferença é que atualmente, ao invés de capitanias hereditárias, temos o oligopólio. Caso esta projeção venha a ser consolidada, teremos de importar o arroz do Vietnã, o café da Colômbia, e dentre outros alimentos indispensáveis em nossas mesas, e quem acaba pagando por isso é o povo, à causa dos inevitáveis aumentos destes produtos.
Nos deparamos com inúmeras desvantagens irreversíveis para a sociedade e também para o meio ambiente em prol do capital. Sob um discurso da produção do etanol e da contribuição para o Protocolo de Kyoto, esconde-se a barbárie social gerada pelo oligopólio gerador do etanol. Vale ressaltar que, para ser vendido para os Estados Unidos, o etanol paga uma sobretaxa de 0,25 centavos de dólar por galão, em protecionismo aos produtores norte americanos. No ultimo sábado, 31 de março, o presidente Lula esteve em Washington para dar continuidade as negociações.
Finalmente, conclui-se que nos deparamos com um neocolonialismo econômico que só tende a nos prejudicar, afetando especialmente os mais fracos. Ainda temos de ouvir que as Universidades norte americanas e brasileiras estarão trabalhando juntas em pesquisas, e em prol do capital serão investidos milhões. Enquanto isso, nem sequer ouvimos falar de investimentos na área da saúde, segurança pública e social.
Gustavo de Souza Pinto, Professor e Historiador.
Extraído do jornal comércio da Franca em 08/04/2007.
enviada por Gustavo
12/11/2007 18:56
A Mundialização da Cultura do Medo e a Mercantilização da Violência.
Gustavo de Souza Pinto
Especial para o Destaque
Estamos nos tempos da era tecnológica e vivendo em pleno mundo globalizado. Porém, nos deparamos com o regresso humano perante as questões sociais e com uma preocupação maior em manter o sistema capitalista do que de vir a propagar algum tipo de mudança neste, a não ser que seja para a manutenção do mesmo, para que este não alcance o colapso tão aguardado pela esquerda mundial.
Este sistema inserido no mundo globalizado vem acompanhando, a cada dia, o crescimento das taxas de violência que se divide e se subdivide em distintas modalidades. E quais são as formas de violência que ocorrem no Brasil e a nível mundial?
Seja por meio de guerras travadas no Oriente Médio, de caráter político, econômico, religioso, ou até mesmo por meio do terrorismo que é só mais uma técnica propagada por grupos, sejam eles fundamentalistas ou idealistas, não importando a causa pela qual a guerra é travada, esta simplesmente gera mortes e devastação onde quer que seja realizada. Por sinal, depois da guerra o terrorismo é a técnica que mais faz vitimas em um mesmo ato, e a que mais recebe visibilidade da mídia. Todavia, não devemos nos esquecer de tantas outras formas de violência que permeiam a sociedade, como por exemplo: os massacres no campo, as brutalidades cotidianas vivenciadas nas grandes metrópoles, a extração de direitos sociais e trabalhistas, o descaso do Poder Público - gerador do aumento das desigualdades, e o aprofundamento dos níveis de pobreza e exclusão social, fatores estes deixados de lado pela mídia, pois estes não são tão lucrativos quanto fazer a publicidade da “cultura do medo”.
A violência, em suas múltiplas faces, traz como vitimas não só indivíduos como sociedades de diversos paises, com maior ou menor intensidade, e assim nos deparamos com a “mundialização da cultura da violência” que gera a cultura do medo. Cultura esta tão presente em todos os meios de comunicação, estampando o desastre, o terror, a destruição, a tragédia e o sangue derramado em cada episódio ocorrido pelo mundo. E quais as intenções e conseqüências geradas pela cultura do medo? Se faz necessário propagar a cultura do medo, para que seja possível realizar a mercantilização da violência, setor este extremamente lucrativo.
E para que a sociedade movimente este setor, o que tem sido feito? A mídia mundial faz seu papel de publicidade da “cultura do medo” e afeta o imaginário da sociedade, que passa a não discernir a realidade social, a não ser por meio da mídia, induzindo a sociedade a consumir produtos para se defender da violência. Violência esta latente e preocupante em nossa sociedade, com insegurança crescente e, dia após dia, a burguesia levanta seus muros, instala circuito de câmeras de segurança, cercas elétricas, cães de guarda e contratam empresas particulares para se sentirem protegidos do que estão do lado de fora destes verdadeiros “Bunkers”. Investimentos de alto custo que apenas uma pequena minoria tem acesso. Desta forma, movimenta-se um setor econômico que recebe investimentos tanto de indústrias nacionais quanto internacionais. Processo este desenvolvido em todos os continentes. A grande maioria, que não tem condições de transformar seus lares em verdadeiras fortalezas, torna-se vitima em potencial por estarem mais acessíveis, mais fáceis de serem atingidas pela violência.
Quanto mais a “cultura do medo” imperar, mais fácil se torna às formas de assegurar a continuidade da produção da “mercantilização da violência” que movimenta bilhões na economia mundial.
Concretizando, a “cultura do medo” atrelada a “mercantilização da violência”, contribuem diretamente para com o controle social, desarticulando formas de organizações sociais e protegendo assim cada vez mais os interesses do capital.
Gustavo de Souza Pinto é bacharel e licenciado em História pela UNESP - Franca.
Franca , julho de 2007.
Obs: Este curto artigo faz parte de um livro ao qual venho trabalhando durante algum tempo sob orientação de alguns professores e que em breve pretendo publica-lo.
Vale ressaltar que este texto já foi rejeitado por diversos jornais e outros meios de comunicação.
enviada por Gustavo
12/11/2007 18:51
O leite nosso de cada dia
É incrível como um dos alimentos indispensáveis nas mesas de todas as classes sociais brasileiras possa estar sendo o principal personagem em mais um dos escândalos que já se rotinizaram no Brasil.
Apesar do Brasil ser um dos paises com maiores extensões territoriais do mundo, estas terras além de mal distribuídas, são também mal direcionadas perante a produção agrícola e conseqüentemente, afeta os produtos a serem consumidos pela população. Ou seja, produz-se cana-de-açúcar de mais e leite de menos, desta forma o mercado tem que dar conta da procura. Encontramos então consumidores de mais e produtores de menos.
Eis que um engenheiro químico teve a brilhante idéia de reaproveitar o leite azedo, e para tanto resolveu utilizar dois produtos químicos, já bem conhecidos de todas as classes sociais brasileiras, que vem a ser a soda caustica utilizada como produto de limpeza e a água oxigenada um produto de uso estético. E a partir da utilização de ambos expor o leite a um processo de “desazedamento”, e desta forma produzir-se mais para dar conta da procura no mercado.
Acontece que este escândalo do leite nosso de cada dia afetou diretamente todas as camadas sociais brasileiras, e por isso teve tanta latência em todos os meios de comunicação possíveis, talvez se tivesse afetado somente as classes marginalizadas, nem teria tanta importância assim. Porém como o leite é um alimento comum entre todas as classes, nos deparamos agora com um alarmante problema que até então se quer esbosaram alguma saída.
E desta forma as coisas seguem o seu curso, quem tem pode aquisitivo melhor toma leite enriquecido com Omega 5 e porque não, nas devidas proporções soda caustica e água oxigenada. Para que consumir iogurtes especializados em melhorar o funcionamento do intestino, custam caro, se você pode tomar leite enriquecido com soda caustica, afinal tem algo melhor do que este produto para desentupir encanamentos, quem dirá o nosso intestino. O leite passou a ser multi-uso, pode ser utilizado também em salões de beleza, como colorante para cabelos, ou para os conhecidos banho de lua, descolorir os pelos do corpo. E para que tomar coca-cola depois das refeições, a soda é mais precisa e rápida na digestão. E a ultima utilidade seria a de desentupir pias e vasos sanitários, basta adicionar dois litros de leite e o problema esta resolvido.
O incrível é que isso não acontece pela primeira vez, em 1917 em pela crise, os produtores adicionavam areia, fubá e farinha de trigo entre outros alimentos também eram adulterados, e o que aconteceu? Os operários se mobilizaram e realizaram a primeira greve geral da história brasileira.
Fica aqui então uma ultima questão. Perante um escândalo que envolve diretamente a saúde publica do Brasil, o que será feito.
Obviamente nada, pois após a noticia de que iremos sediar a copa do mundo de 2014, noticia esta o suficiente para anestesiar a mente da população que acaba sendo cúmplice por omissão,
E que venha o Hexa em 2014, e até lá muitas ulceras, gastrites, câncer e por ai seguem os efeitos colaterais ainda não foram diagnosticados.
Até quando teremos de ser obrigados a rir de nossa própria desgraça?
Gustavo de Souza Pinto, bacharel e licenciado em História pela Unesp-Franca.
Franca Novembro de 2007
enviada por Gustavo
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